O Preço do Pão: Quando o Mundo Decide Não Ver

By Eden Antonio

O Preço do Pão: Quando o Mundo Decide Não Ver

O chão treme. Um estrondo corta o céu de Gaza como uma faca. No escuro, uma mulher grávida segura o ventre e sussurra: “Não agora, meu amor, não agora.” Seu nome é Yara. Ela tem 24 anos e já enterrou dois filhos. O terceiro vem a caminho e ela prometeu a si mesma que desta vez seria diferente. Enquanto isso, em Ramallah, uma professora chamada Leila escreve números num quadro rachado: “2 + 2 = 4”. Seus alunos não sabem que ela vendeu seu casaco de inverno para comprar giz. Em Hebron, uma avó chamada Fatima amassa farinha e água. Seus netos choram de fome. Ela ora em árabe, “Allah yirda aleik” (Que Deus tenha misericórdia), enquanto divide um único pão em oito pedaços.

Não é febre que consome estas mulheres. É fome. É medo. É a dor de saber que o mundo as vê, mas escolhe desviar o olhar.

Enquanto você lê estas palavras, um drone sobrevoa a casa de Yara. Um soldado israelita, a quilómetros de distância, observa-a num ecrã. Ele bebe café. Aperta um botão.

Não há Deus que justifique o que acontece a seguir.


O Silêncio dos Justos

Na Cisjordânia, uma mulher cristã chamada Mariam abre a Bíblia. Seus dedos tocam nas palavras de Jesus: “Amai os vossos inimigos.” Ela olha para o muro que divide a sua casa das colónias israelitas. Seu filho de 10 anos pergunta: “Mãe, por que é que Deus deixa que eles nos façam isto?” Mariam não tem resposta. Reza em silêncio. Do outro lado do muro, uma mulher judia acende velas de Shabat. Ela também ora pela paz. Nenhuma das duas sabe que partilham o mesmo medo.

Em Gaza, uma jovem muçulmana chamada Huda perdeu a perna num bombardeamento. Antes de ser enfermeira, agora é paciente. Ela ensina crianças a cantar: “Even if the sky falls, we will plant hope.” (Mesmo que o céu caia, plantaremos esperança). Seu pai foi morto por um sniper quando tentava buscar água. Sua irmã desapareceu sob os escombros. Huda ainda acredita que Alá é misericordioso. “Porque senão,” pergunta ela, “o que nos restaria?”


O Tribunal dos Vencedores

Enquanto isso, em Haia, a África do Sul apresenta provas de genocídio. Mostram fotos de crianças desmembradas, hospitais destruídos, pais a carregar os filhos em sacos plásticos. Os advogados de Israel chamam-lhe “legítima defesa”.

Na ONU, os EUA vetam mais uma resolução de cessar-fogo. “Israel tem o direito de se defender,” dizem. Não mencionam os USD 3.8 biliões em armas que enviam todos os anos. Não falam dos satélites que guiam as bombas. Não confessam que Gaza é um laboratório para testar novas tecnologias de morte.

Na Espanha, o primeiro-ministro Pedro Sánchez chora ao ver as imagens. “Basta,” diz ele. Mas as suas lágrimas não param as escavadoras que abrem valas comuns.


As Mães dos Mortos

Numa tenda de refugiados, uma mulher chamada Um Mohammad amamenta o bebé da sua vizinha morta. Seu próprio leite secou há semanas, mas ela finge. O bebé chupa seu mamilo seco, e ela canta: “Sleep, my love, don’t hear the bombs.” (Dorme, meu amor, não ouças as bombas).

Noutra tenda, uma avó chamada Khadija cose pedaços de tecido para fazer um vestido de noiva para a sua neta. A cerimónia será numa cave. Não há comida, não há vinho, não há música. “Só queremos que ela conheça o amor antes da morte,” sussurra Khadija. Suas agulhas tremem com cada explosão.


O Mundo Não Chora

Numa rua de Londres, um homem num casaco caro lê notícias sobre Gaza no seu telemóvel. “Tragédia,” murmura. Depois desliza para o próximo artigo: “Mercado de acções em alta.”

Em Nova Iorque, uma adolescente publica “#FreePalestine” no Instagram. Logo a seguir, uma foto do seu latte com espuma.

Em Lisboa, um político diz: “A situação é complexa.” Complexa. Como se fosse um problema de matemática e não de crianças com fome.


O Último Acto de Amor

De volta a Gaza, Yara dá à luz numa cave. Não há luz, não há água, não há médicos. Ela morde um pedaço de tecido para não gritar. Quando o bebé nasce, ela corta o cordão umbilical com uma pedra afiada. Segura-o contra o peito. “Chama-se Amal,” diz ela. “Esperança.”

Lá fora, os drones zumbem como moscas. Um soldado israelita, noutro continente, vê Yara no seu ecrã. Aperta outro botão.

A última coisa que Yara ouve é o choro do seu bebé. A última coisa que vê é o céu a desabar sobre ela.


O que você fará agora?

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  • Doar para organizações que estão no terreno.
  • Recusar-se a ser cúmplice do silêncio.

“O oposto do amor não é o ódio. É a indiferença.” – Elie Wiesel

Não seja indiferente.

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