O Carnaval nas Antilhas: Zouk, Turismo e a Magia que Move Multidões
O Carnaval na Martinica e em Guadalupe não é apenas uma festa; é uma explosão de identidade, resistência e alegria que transforma as ruas em palcos de cores, dança e música. E nenhum ritmo esteve mais ligado a essa celebração do que o zouk, que se tornou a soundtrilha oficial da folia antilhana. Este texto explora como o Carnaval e o zouk se entrelaçaram para criar um fenómeno cultural que atrai milhares de turistas todos os anos, impulsionando economias locais e projetando as Antilhas para o mundo.
1: O Carnaval nas Antilhas – Raízes e Significado
O Carnaval na Martinica e em Guadalupe é uma herança colonial reinventada pela criatividade negra. Surgiu como uma forma de os escravizados satirizarem os seus opressores, usando máscaras e trajes que caricaturavam a elite europeia. Hoje, é uma celebração da crioulidade a fusão de influências africanas, indígenas e europeias que define a cultura antilhana.
- Datas: O Carnaval ocorre oficialmente entre a Epifania e a Quarta-feira de Cinzas, com o auge nos dias de Dimanche Gras, Lundi Gras e Mardi Gras.
- Rituais:
- Desfiles de Rei e Rainha: Figuras centrais eleitas pela comunidade.
- Grupos de “Pérolas”: Bailarinos com trajes extravagantes.
- Vaval: O rei do Carnaval, cujo effigy é queimado na Quarta-feira de Cinzas para simbolizar o fim da folia.
2: Zouk – A Batida que Conquistou o Carnaval
Nos anos 80, o zouk emergiu como a voz musical das Antilhas. Sua batida acelerada (zouk béton) era perfeita para os desfiles, enquanto o zouk love (mais lento e sensual) dominava as festas noturnas. Artistas como Kassav’, Patrick Saint-Éloi, e Édith Lefel tornaram-se ícones do Carnaval.
- Kassav’ e o Hino Não Oficial: “Zouk la sé sèl médikaman nou ni” (O zouk é o nosso único remédio) tornou-se um lema durante a folia.
- Édith Lefel: Sua música “Jou ouvè” (Dia Aberto) era tocada durante os desfiles matinais.
3: Festivais de Zouk e o Impacto no Turismo
A partir dos anos 90, festivais de zouk começaram a atrair turistas de toda a Europa, América do Norte e até do Japão.
Festivais Icónicos:
- Zouk Night Fever (Guadalupe):
- Realizado em Pointe-à-Pitre, reunia até 20.000 pessoas por noite.
- Artistas como Gilles Floro e Tanya Saint-Val comandavam as multidões.
- Martinique Zouk Festival (Fort-de-France):
- Tinha como auge um concerto na Praça da Savana com capacidade para 30.000 pessoas.
- Perry Rose e Eric Virgal eram presenças constantes.
- Paris Zouk Convention (França):
- Provou que a influência do zouk cruzara oceanos, com adeptos a dançarem até o amanhecer.
Impacto Económico:
- Hospitalidade: Hotéis lotados durante a época de Carnaval e festivais.
- Comércio Local: Vendas de trajes, artesanato e comida de rua disparavam.
- Empregos: Guias turísticos, seguranças, produtores de evento e motoristas viam a demanda aumentar.
4: Como os Artistas Moviam Multidões
Os concertos de zouk durante o Carnaval eram eventos épicos.
- Kassav’: Preenchia estádios com performances energéticas, incluindo dançarinos de quadrille (dança tradicional).
- Édith Lefel: Seus shows íntimos no Club Med ou em praias atraíam turistas românticos.
- Jocelyne Béroard: A “voz feminina do Kassav'” cativava o público com canções como “Pa bizwen palé”.
A coreografia do zouk sensual, sincronizada e acessível fez com que turistas se juntassem aos locais nas danças.
5: O Declínio e a Herança
Nos anos 2000, o zouk perdeu espaço para o dancehall e o reggaeton, mas seu legado permanece:
- Turismo Cultural: Agências de viagem ainda oferecem “pacotes zouk” para as Antilhas.
- Revival Nostálgico: Festivais temáticos em Paris e Montreal mantêm a chama acesa.
- Influência Musical: Artistas como Rihanna e Drake samplearam batidas de zouk.
A morte de Édith Lefel (2003) e de Jacob Desvarieux (2021) marcou o fim de uma era, mas a sua música continua a ser tocada todos os Carnavais.
Conclusão: Quando a Música Transforma um Lugar
O Carnaval na Martinica e em Guadalupe, impulsionado pelo zouk, mostrou como a cultura pode ser motor económico e turístico. Mais do que isso, provou que a diáspora antilhana podia celebrar suas raízes enquanto conquistava o mundo.
Como cantou Kassav’: “Nou sé déwò épi nou la” (Somos de fora e estamos aqui). O zouk e o Carnaval são testamentos dessa presença vibrante e inegável.